Absinto caipirinha

UM BRIN­DE À LA VAN GOGH

O Bra­sil po­de não ter pro­duzi­do um Van Gogh, um Pi­cas­so, um Ver­la­ine ou um Os­car Wil­de. Mas uma das mu­sas ins­pi­rado­ras des­ses ar­tistas já está sen­do fe­ita aqui. É o ab­sinto, uma be­bida que se tor­nou clássi­ca no início do sécu­lo 19. De­po­is de 65 anos pro­ibi­do no país – por ca­usa de seu te­or al­coóli­co, que che­gava a 85% -, o ab­sinto te­ve a pro­dução li­bera­da no fim do ano pas­sa­do pe­lo Mi­nistério da Ag­ri­cul­tu­ra.
Qu­an­do a de­cisão sa­iu, o emp­resário Ma­rio Re­uter Ca­mar­go, do­no da Uni­land Ex­port, já es­ta­va com a mão no alam­bi­que.

Al­guns me­ses an­tes, ele tin­ha per­ce­bido que o ab­sinto vol­ta­ra a ent­rar na mo­da na Ing­la­ter­ra e ima­ginou que a on­da lo­go che­garia aqui. Sa­in­do na fren­te, con­se­gu­iu um re­gist­ro do Mi­nistério da Ag­ri­cul­tu­ra e tor­nou-se o pi­oneiro na pro­dução da be­bida no país. A Uni­land Ex­port dist­ri­bu­iu, em ja­ne­iro, 400 ca­ixas, ca­da uma con­tendo 12 gar­ra­fas. A be­bida foi pos­ta à ven­da em ba­res, res­ta­uran­tes e ca­sa no­tur­nas de São Pa­ulo, a um preço de 45 re­ais por gar­ra­fa. A próxi­ma saf­ra sai es­te mês.

Ca­mar­go, que fa­turou 300 000 dóla­res no ano pas­sa­do ex­portan­do ca­chaça pa­ra Ale­man­ha, Es­ta­dos Uni­dos e Ing­la­ter­ra, en­cont­rou uma fórmu­la pa­ra fa­zer ab­sinto num liv­ro Francês do sécu­lo ret­ra­sado. “Im­porta­mos a plan­ta da Euro­pa e co­meçamos a fab­ri­car em março, mas só pu­demos ven­der no co­meço des­te ano”, diz.

Nes­se me­io tem­po, o go­ver­no bra­sile­iro li­berou, pro­ibiu e vol­tou a li­berar a ven­da do ab­sinto. Com rest­rições: a gra­duação máxi­ma é de 54 % de te­or al­coóli­co e a qu­an­ti­dade de thu­jone – o princípio ati­vo da plan­ta, que em gran­des pro­porções tem efe­ito alu­cinóge­no – não po­de ult­ra­pas­sar 10 mi­lig­ra­mas por qui­lo de be­bida. No sécu­lo 19, o nor­mal eram 350 mi­lig­ra­mas por qui­lo. Mes­mo com es­sas rest­rições o ab­sinto é a be­bida ma­is for­te ven­di­da no Bra­sil, à fren­te da vod­ca (até 50%) e da ca­chaça (até 49%).

His­to­rica­men­te, a plan­ta que dá ori­gem à be­bida (Ar­temísia ab­sint­hi­um) era usa­da co­mo me­dica­men­to em do­enças gástri­cas. A be­bida mes­mo foi fab­ri­cada pe­la pri­me­ira vez na Suíça e, no início do sécu­lo 19, vi­rou co­qu­elu­che da bo­emia européia – até ser pro­ibi­da, na ma­ioria dos países, por ca­usa da gra­duação al­coóli­ca.

A versão bra­sile­ira do ab­sinto (WWW.ab­sinto­camar­go.com.br) ap­re­sen­ta pe­qu­enas va­riações. Ca­mar­go di­minu­iu a qu­an­ti­dade de anis, que, se­gun­do ele, de­ixa­va o ab­sinto com um gos­to mu­ito ado­cica­do. “Pa­ra aba­ixar o te­or amar­go da plan­ta, co­loca­va-se uma gran­de qu­an­ti­dade de anis, de­ixan­do a be­bida mu­ito do­ce. Pro­cura­mos de­ixá-la me­nos ado­cica­da, ma­is próxi­ma do pa­ladar bra­sile­iro”, diz.

Da­ni­ela Di­niz

Fon­te: Re­vis­ta Exa­me