Absinto Made in Brazil

Ele nas­ceu co­mo remédio pa­ra o es­to­mago e só de­po­is se tor­nou uma be­bida, um tan­to qu­an­to mis­te­ri­osa, mu­ito ap­re­ci­ada por ar­tistas in­te­lec­tu­ais do fi­nal do sécu­lo 19, início do sécu­lo 20. Gêni­os co­mo Pi­cas­so, Van Gogh, Os­car Wild e Er­nest He­ming­way, ent­re out­ros, não dis­pensa­vam uma taça do es­verde­ado ab­sinto du­ran­te as efer­vescen­tes no­ites pa­risi­en­ses.

Fe­ito à ba­se da plan­ta Ar­temísia ab­sint­hi­um e com al­to te­or al­coóli­co, be­iran­do os 80%, o ab­sinto está pro­ibi­do há qua­se cem anos na ma­ior par­te do mun­do. “O ab­sinto é ape­nas li­bera­do na Repúbli­ca Tche­ca, Bulgária, Por­tu­gal, Es­panha, Japão e Bra­sil. Na Ing­la­ter­ra ele po­de ser co­mer­ci­ali­zado, mas não fab­ri­cado”, exp­li­ca Ma­rio Re­uter, di­retor da Uni­land, que fab­ri­ca o ab­sinto Ca­mar­go, Ma­de in Bra­zil.

Fab­ri­cado pe­la Uni­land Ex­port, o ab­sinto Ca­mar­go obe­dece à ris­ca a lei bra­sile­ira: 54% de te­or al­coóli­co e ape­nas 10mg de thu­jone pa­ra ca­da qui­lo da be­bida. O que, mes­mo as­sim, a tor­na a be­bida ma­is for­te ven­di­da ho­je no País. A ca­chaça, por exemp­lo, pos­sui te­or al­coóli­co de 38% a 49%%, a vod­ka de 40%  a 50%; e o uísque 43%. Nos out­ros países on­de o ab­sinto é li­bera­do, sua por­centa­gem al­coóli­ca va­ria ent­re o 50% e 85%. Pa­ra mel­hor sa­bore­ar o ab­sinto (ver bo­xe), ele de­ve ser ser­vi­do com ge­lo e um po­uco d’água. Des­ta for­ma, seu te­or al­coóli­co aba­ixa pa­ra 25%, si­milar te­or al­coóli­co de uma ca­ipi­rin­ha.

O ab­sinto de­ve ser ser­vi­do ge­lado, qu­an­do mu­da de cor, tor­nando-se opa­co e esb­ran­quiçado. “Ap­re­cio mu­ito seu fun­dinho amar­go com um po­uco de sa­bor de anis”, con­ta Re­uter. Aliás, a re­ce­ita bra­sile­ira se­gue a fran­ce­sa, com pe­qu­enas adap­tações. “Ba­ixa­mos a qu­an­ti­dade de anis por­que os bra­sile­iros não gos­tam de­le”, ava­lia. Out­ra mu­dança foi no pro­ces­so de des­ti­lação. Pa­ra evi­tar res­sa­cas e do­res-de-ca­beça, a be­bida re­sul­tante da pri­me­ira e últi­ma par­te do pro­ces­so de des­ti­lação (ca­beça e ca­uda) fo­ram des­carta­das. Na pre­paração do ab­sinto Ca­mar­go só é uti­liza­do o co­ração da des­ti­lação, que nes­ta fa­se está com um te­or al­coóli­co de 80%  - e já é uma be­bida ext­re­mamen­te pu­ra, po­is seu álco­ol foi bi-des­ti­lado. De­po­is adi­ci­onam al­guns ing­re­di­en­tes es­pe­ci­ais, aba­ixam o te­or al­coóli­co do co­ração do li­qu­ido pa­ra 54% com água pu­ra; filt­ram e en­garra­fam.

Polêmi­ca – Foi um médi­co fran­co-suíço qu­em in­ventou o ab­sinto, pa­ra com­ba­ter ma­les da di­gestão. “De­po­is um médi­co Fran­ces comp­rou a re­ce­ita”; con­ta Re­uter.  O emp­resário bra­sile­iro foi ap­re­sen­ta­do ao ab­sinto em 1998, du­ran­te uma vi­agem a Ing­la­ter­ra, país pa­ra on­de ex­porta ca­chaça bra­sile­ira. “Gos­tei mu­ito da be­bida e co­mecei a pes­qui­sar pa­ra po­der fab­ricá-la por aqui. No ano pas­sa­do co­meçamos a fa­zer os tes­tes, a pri­me­ira gar­ra­fa fi­cou pron­ta em março, fi­zemos o re­gist­ro e o go­ver­no pro­ibiu a co­mer­ci­ali­zação no fi­nal do ano pas­sa­do”, lemb­ra. O prob­le­ma foi que, na mes­ma épo­ca um im­porta­dor co­meçou a ven­der no Bra­sil o ab­sinto por­tu­guês e dis­se­ram que seu te­or al­coóli­co su­pera­va o per­mi­tido pe­la lei bra­sile­ira, mas que era uma in­verda­de. “Des­fe­ito o polêmi­co en­ga­no, co­meçamos a ven­der o ab­sinto em Ja­ne­iro”.

Os ing­re­di­en­tes do ab­sinto bra­sile­iro – fol­has e par­te su­peri­or de do­is ti­pos de Ar­temísia (ab­sint­hi­um e pon­ti­ca), do­is ti­pos de anis, func­ho e his­so­po, ent­re out­ras er­vas aromáti­cas e es­pe­ci­arias – são im­porta­dos da Euro­pa. “Co­mo o pro­ces­so é ar­te­sanal, fab­ri­camos ape­nas 400 ca­ixas por mês, e mes­mo as­sim já es­ta­mos sen­do ho­mena­ge­ados em pub­li­cações in­terna­ci­onais”, afir­ma o emp­resário.  Se­gun­do ele o álco­ol bra­sile­iro é um dos mel­ho­res do mun­do pa­ra a fab­ri­cação de be­bidas, e por is­so o sa­bor do ab­sinto bra­sile­iro tem se des­ta­cado.

Thu­jone – Os “po­deres” alu­cinóge­nos do ab­sinto vêm do thu­jone, princípio ati­vo da Ar­temísia ab­sint­hi­um, também po­de ser en­cont­ra­do na sálvia e no est­ragão. No sécu­lo 19, o ab­sinto era pro­duzi­do com cer­ca de 350mg de thu­jone pa­ra ca­da qui­lo da be­bida, ho­je são 10 mg. Pa­ra que o ab­sinto bra­sile­iro não ult­ra­pas­se es­sa por­centa­gem de thu­jone, a Uni­land Ex­port e a pes­qui­sado­ra Re­gina Van­derlin­de do Ins­ti­tuto bra­sile­iro do vin­ho (Ib­ra­vin) de­sen­volve­ram um méto­do es­pe­ci­al que ga­ran­te a es­pe­cifi­cação da lei bra­sile­ira.

Sil­via Her­re­ra

Fon­te: DCI - SP